Anish Kapoor, Destino Berlim by Cristina Burlamaqui
23 mai
“It’s an interplay between the viewer and the material, the stuff , the object”
Anish Kapoor, considerado como um dos artistas mais importantes da arte contemporânea internacional, apresenta pela primeira vez em Berlim, uma grande exposição com 70 trabalhos de 1988 a 2013, composta de inusitadas instalações e esculturas em uma extensão de mais 3000 metros no andar térreo do Martin-Gropius Bau, museu localizado no centro da cidade.
O artista, nascido em Mumbai, antiga Bombaim e naturalizado na Inglaterra, usa o andar térreo, incluindo o átrio do museu de estilo Neo-Renascentista do século XIX, para uma enorme instalação cinética com sensores como uma estação por onde percorrem por trilhos blocos de cera vermelha, que sobem ao primeiro andar, em catracas com sensores que levam estes grandes blocos vermelhos de cera para cima e para baixo, que cortados caem no solo como paralelepípedos de cera vermelha.
O artista recusa a ideia de retrospectiva porque ainda tem muito que trabalhar e em Berlim, quer tentar “something else” apesar de mostrar alguns trabalhos antigos aonde estão o corpo do trabalho das últimas três décadas, ele ressalta a extravagância de cores, formas e texturas que foram chamada de ”uma inventiva eterna no teatro da escultura” pelo curador britânico Norman Rosenthal.
Na obra de Kapoor, a cor tem um poder transformador, é como um halo, ou seja, um círculo de luz que envolve enigmáticas formas que se desintegram em tempo infinito.
Como Kapoor, esta exposição reforça as características da obra do artista com o material empregado de vaselina e cera, que fazem uma referência ao seu país de nascimento, a Índia com as cores vermelhas, cheiro de açafrão,cor negra da antiga obra Descend to Limbo , apresentada em Kassel IX, como indicativo de sua cultura mais ainda, com os pigmentos espalhados nas paredes e os plásticos cobrindo esculturas no intuito de retirar a forma.
Symphony for beloved Sun, 2013, Martin-Gropius Bau
Saindo de buracos na parede e de um alçapão no chão, catracas sobem em estruturas rumo ao céu ou melhor, em direção à abóboda de vidro, carregando grandes blocos retangulares de cera viscosa, de cor vermelho vinho. Assim, a cera sobe, um som surge antes de cair no fimda subida com um grande estrondo e se percebe, ao cair no chão de linóleo, os blocos de cera em formas retangulares e a enorme esfera vermelha suspensa por uma estrutura de metal querange.
Esta obra, Kapoor intitulou como Symphony for a Beloved Sun e que é a grande criação/atração da entrada principal do museu.
A cor é o interesse maior do artista Anish Kapoor,principalmente o vermelho vinho, o sangue como sombra que o artista vê como uma realidade visceral!
Na exposição, Anish Kapoor apresenta uma nova visão do trabalho Descend into Limbo (1992) que foi uma das atrações da Documenta IX de Kassel, que é composto por um grande círculo de pigmento preto que cria uma ilusão de uma buraco negro aberto no chão.
O artista trabalha com pedras, alabastro, cera, pigmentos, materiais industriais, PVC, materiais high tech, entre outros.
O Martin-Gropius Bau é um curioso prédio do século XIX, ligado a história de Berlim como um espaço muito potente e Anish Kapoor considerou este legado muito instigante para sua mostra e criou vários contrapontos contemporâneos para envolver com sua exposição de 3000 metros de esculturas e instalações, toda a estrutura de pilares ornamentais e mosaicos que predominam no prédio.
Esta instalação remete Malevich com sua famosa opera “Victory over the Sun” (premiére 1913) e a El Lissistzky in “Pround” abreviação do Projeto para a Afirmação do Novo e El Lissistzky que inventou o novo mundo ele mesmo descrito como “ way station on the road from painting to architecture”.
Antes de Kapoor, Joseph Beuys, também no mesmo átrio, em 1982, aludiu com sangue industria l, os massacres da guerra nazista.
Shooting into the corner, 2013, Anish Kapoor
Aqui, Anish Kapoor reverte a questões clássicas da pintura e os códigos da arte recriando uma nova forma de pintar, trocando a mão do pintor pelo canhão que ejeta balas de canhão de pigmento vermelho, em intervalos regulares, que se espalha do teto ao chão, atingindo as paredes laterais do canto da sala de exposição, manchando as paredes de vermelho sangue!
Isto causa nas paredes, teto e chão uma transformação da arcaica e prosaica forma de pintar em uma nova pintura que ele acha mais espontânea.
Para o artista, a chegada do trabalho ao espaço, depois de meses de criação mental e física, “se dá, somente quando eles estão no espaço real portanto ali, eles ganham a vida que lhes pertence”.
Anish Kapoor não quer que, vejam esta exposição como uma retrospectiva porque ele ainda tem muito a fazer, mas como uma abertura para novas possibilidades das questões da escultura, do processo da articulação da escultura assim como o processo da perfomance das instalações e o questionamento da perfeição através da desmaterialização, que ele consegue com a intervenção na arquitetura do prédio.
Sino
Seguindo com outras estruturas, revela grande potência criativa, como as esculturas de cera e resina sintética em vermelho vinho entre as sinuosidades de um sino de reflexão barroca e fragmentos geometricamente cortantes com pilares de aço, ferro e que revelam uma rotação vagarosa de um sino de cera.
Este enorme sino, cortado por esta grande placa de ferro fica em contínuo movimento rotativo e foi concebido como um processo autônomo sem fim, sendo um trabalho singular e estranho e cria uma comoção do sublime e uma surpresa para os sentidos.
As estruturas encontram vida pela presença delas próprias no espaço e a descoberta da cor adquire diferentes meios de fisicalidade e de interpenetração nos blocos monocromáticos em uma espécie de processo abstrato.
O vermelho é a cor com a qual ele trabalha mais a vontade porque é a cor do físico, da terra e do corpóreo e assim, ele questiona o espaço, o volume, a luz e a sombra além dos materiais. E, sobretudo ele se interroga sobre o sentido da existência através da experiência do espectador.
Assim, Kapoor cria um lugar que propicia um diálogo constante e aberto que desafia os limites entre arte e arquitetura.
When I’m pregnant
A instalação, When I’m Pregnant foi executada com arenito (sandstone), alabastro, pedra cálcarea de Kilkenny, que foi encontrada na Catedral de Saint Canice da época medieval, e também, fibra de vidro que forma as protuberâncias e orifícios, montanhas e sepulturas como estruturas que se tornaram marcas registradas de Kapoor, que reflete o longo e complexo currículo do mais celebrado escultor da história britânica.
Os blocos retangulares, as Resin parecem blocos de amazonitas, pedras semipreciosas mas na realidade, são massas de resina esculpidas e com grandes fendas quadradas que deixam ver através talvez, como o reflexo dos espelhamentos.
Resin, 2013
Aqui, as esculturas de resina sintética que parecem grandes blocos de pedras com erosões formam uma grande instalação como uma visita imaginárias às ruínas de uma cidade etrusca.
Escultura espelhada refletindo o guarda do museu que foi
convidado a visitar a exposição tornando, o centro da exposição.
Red Mirror
As estruturas de espelhos côncavos e convexos de Kapoor, personificam o mundo à sua frente. No reflexo da superfície brilhantemente polida, a percepção se dá em uma visão distorcida de si mesmo e da sala e às vezes, várias perspectivas aparecem simultaneamente em um reflexo do espelho.
O visitante vê ele mesmo, como em close up, como um efeito de uma lente de aproximação e ao mesmo tempo, com grande distanciamento. O que o espelho revela, como objetivo, é um jogo de percepção que apesar da economia de expressão, faz com ele nunca pareça hermético mas sim, revelador e sempre aberto e acessível.
Estas estruturas brilhantemente polidas convidam o espectador a se tornar ator de sua vida de um moderno “país das maravilhas”!
Os enormes espelhos multifacetados geometricamente continuam a fazer furor e questionamentos nos espectadores, e que caracterizam a obra de Anish Kapoor de habilidade ilimitada e em constante reinvenção de linguagem plástica da arte, ao mesmo tempo dentro do monumental e também nas dimensões menores e nas múltiplas dualidades como a luz na procura de efeitos estéticos entre a perfeição e o caos.
Kapoor pede ao espectador que complete sua obra com o seu olhar e também, para sentir a maneira como percebe o lugar. Isto não é novidade, é da condição da expressão humana, pensada tanto na contenção da obra como na recepção da mesma.
E, no jogo de luz e sombra em tensão dos materiais, espelhados tecnologicamente, que faz mudar a cada uma das imagens que surgem e se voltam sobre elas e nunca mais, serão a mesma imagem refletida.
Suas criações são feitas de materiais naturais e materiais artificiais de alta tecnologia em eterna inventiva na busca sugestiva de metáfora abstrata.
Por outro lado, a instalação de plástico preto que ocupa três salas como uma baleia que redefine as relações entre pintura, escultura e arquitetura e provoca o olhar diante da feiura dos bolsões de plásticos inchados que invadem o espaço, e se esgueiram por caminhos sinuosos tentando e sobrando pelos cantos criando uma discussão da questão da perfeição pretendida pelo artista e que aqui, é ignorada de propósito É aonde, se desmaterializa a perfeição.
E, Anish Kapoor discute a entropia e a perfeição, a morte, o melancólico “que fala do inevitavelmente da morte do estado ou o declínio do estado” que vem sendo experimentado pela Europa e o mundo em geral.
O artista Anish Kapoor, com sua genial capacidade de criação, é capaz de criar obras utilizando elevado nível de tecnologia, que não se sobrepõe diante do espectador e atinge o indivíduo de tal forma, que ele se volta para seus pensamento e sensações. E ali, os materiais trabalhados pelo artista, tornam-se experiência do objeto estético.
A dupla nacionalidade do artista, uma vez que nasceu no Oriente e vive no Ocidente, realiza uma relação entre estes dois mundos e reflete a globalização que caracteriza o mundo contemporâneo e expõe ”o vazio doloroso do mundo ocidental em oposição ao vazio oriental que entende esta questão, própria ao ser humano”.
Em relação a sua estética, a influência indiana de um mundo oriental se submete às tecnologias avançadas do mundo ocidental, que só demonstra ainda mais, sua genialidade de integrar estes elementos opostos em uma realidade de mitos, deuses, cores às aplicações contemporâneas tecnológicas do material e concretizar a ideia de imaterialidade.
Cloud Gate, Millenium Park, Chicago
Turbine, Tate Modern
Um dos maiores criadores da nossa época, Kapoor tem como preocupação principal as questões como a matéria, a abstração e a relação com o espectador.
È claro, que como inglês naturalizado e tendo vivido a maior parte de sua vida na Inglaterra, Anish Kapoor tem vínculos com a arte de Mark Rothko, que se reflete na sua obra onde a cor e a matéria são cheias de sugestões referenciais que renovam o nosso olhar sobre a realidade das coisas.
O artista Anish Kapoor na vernissage
(ver no YouTube: Interview with Anish Kapoor Martin-Gropius Bau)

















































































